Apocrifo do Antigo Testamento Traduzido de: The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English, Vol. I, editado por R.H. Charles, Oxford University Press, 1913. Produzido por Codice Oculto — 2 — INDICE Sabedoria de Salomao Capitulo 1 Capitulo 2 Capitulo 3 Capitulo 4 Capitulo 5 Capitulo 6 Capitulo 7 Capitulo 8 Capitulo 9 Capitulo 10 Capitulo 11 Capitulo 12 Capitulo 13 Capitulo 14 Capitulo 15 Capitulo 16 Capitulo 17 Capitulo 18 Capitulo 19 — 3 — SABEDORIA DE SALOMAO — 4 — Sabedoria de Salomao Capitulo 1 1 Amai a justica, vos que julgais a terra; pensai no Senhor com bondade de espirito, e em simplicidade de coracao buscai-o; 2 porque ele e achado por aqueles que nao o tentam, e se manifesta aos que nao desconfiam dele. 3 Pois pensamentos tortuosos separam de Deus; e o Poder supremo, quando posto a prova, confunde os insensatos. 4 Porque a sabedoria nao entrara numa alma que maquina o mal, nem habitara num corpo sujeito ao pecado. 5 Pois o santo espirito de disciplina fugira do engano, e se afastara dos pensamentos sem entendimento, e sera espantado quando a injustica se aproximar. 6 Porque a sabedoria e um espirito que ama o ser humano, e ela nao deixara impune o blasfemador por causa de seus labios; porque Deus e testemunha de seus sentimentos mais intimos, e verdadeiro observador do seu coracao, e ouvinte da sua lingua. 7 Porque o espirito do Senhor enche o mundo, e aquilo que sustem todas as coisas tem conhecimento de toda voz. 8 Portanto, nenhum homem que profere coisas injustas ficara oculto; nem a Justica, quando pune, o deixara passar. 9 Pois os designios do impio serao investigados; e o relato de suas palavras chegara ao Senhor para o castigo de suas obras iniquas. 10 Porque ha um ouvido zeloso que escuta todas as coisas, e o ruido das murmuracoes nao fica escondido. 11 Guardai-vos, pois, da murmuracao inutil, e refreai a vossa lingua da blasfemia; porque nenhuma palavra secreta seguira impune, e a boca que mente destroi a alma. 12 Nao busqueis a morte no erro da vossa vida; nem atraiais sobre vos a destruicao pelas obras das vossas maos. 13 Porque Deus nao fez a morte, nem se deleita quando os viventes perecem. 14 Pois ele criou todas as coisas para que tivessem existencia; e os frutos do mundo sao salutares, e neles nao ha veneno de destruicao; nem o Hades tem dominio real sobre a terra. 15 Porque a justica e imortal, mas o ganho da injustica e a morte. 16 Porem os impios, com suas maos e palavras, chamaram a morte a si; considerando-a amiga, consumiram-se de amor por ela, e fizeram pacto com ela, porque sao dignos de pertencer a sua porcao. — 5 — — 6 — Sabedoria de Salomao Capitulo 2 1 Pois disseram entre si, raciocinando erroneamente: "Curta e cheia de tristeza e a nossa vida; e nao ha remedio quando o homem chega ao seu fim, e ninguem jamais se soube que voltasse do Hades. 2 Porque por mero acaso nascemos, e depois seremos como se nunca tivessemos existido; porque o sopro em nossas narinas e fumaca, e a razao e uma centelha acesa pelo bater do nosso coracao, 3 a qual, extinguindo-se, o corpo se convertera em cinzas, e o espirito se dispersara como ar rarefeito. 4 E o nosso nome sera esquecido com o tempo, e ninguem se lembrara das nossas obras; e a nossa vida passara como os rastros de uma nuvem, e se dissipara como nevoa perseguida pelos raios do sol e vencida pelo seu calor. 5 Pois o nosso tempo determinado e a passagem de uma sombra, e nao ha como recuar do nosso fim, porque esta selado com firmeza, e ninguem o reverte." 6 "Vinde, pois, e gozemos dos bens presentes, e usemos da criacao com todo o ardor, como possessao da juventude. 7 Enchamo-nos de vinho precioso e de perfumes, e nao nos escape nenhuma flor da primavera. 8 Coroemo-nos com botoes de rosa, antes que murchem. 9 Nao haja prado sem vestigios da nossa orgulhosa folia; por toda parte deixemos sinais da nossa alegria, porque esta e a nossa porcao, e esta e a nossa sorte." 10 "Oprimamos o justo que e pobre; nao poupemos a viuva, nem reverenciemos os cabelos do anciao encanecidos pelos longos anos. 11 Mas que a nossa forca seja para nos lei de justica, pois o que e fraco se mostra de nenhuma utilidade. 12 Armemos ciladas ao justo, porque ele nos e inconveniente, e se opoe as nossas obras, e nos censura por pecados contra a lei, e nos acusa de pecados contra a nossa educacao. 13 Ele professa ter conhecimento de Deus e se proclama servo do Senhor. 14 Tornou-se para nos uma repreensao dos nossos pensamentos. 15 Sua simples presenca nos e penosa, porque a sua vida e diferente da dos outros homens, e os seus caminhos sao de estranha feicao. 16 Fomos considerados por ele como metal vil, e ele se abstem dos nossos caminhos como de impurezas. O fim dos justos ele proclama feliz, e se gloria de que Deus e seu pai." — 7 — 17 "Vejamos se as suas palavras sao verdadeiras, e provemos o que lhe acontecera no fim da sua vida. 18 Pois se o justo e filho de Deus, Deus o amparara e o livrara das maos dos seus adversarios. 19 Com ultraje e tormento, ponhamo-lo a prova, para conhecermos a sua mansidao e provarmos a sua paciencia sob a injustica. 20 Condenemo-lo a uma morte vergonhosa, pois segundo as suas palavras, ele sera visitado." 21 Assim raciocinaram, mas estavam muito errados, pois a sua maldade os cegou, 22 e nao conheceram os misterios de Deus, nem esperaram a recompensa da santidade, nem julgaram que ha um premio para as almas irrepreensiveis. 23 Porque Deus criou o homem para a incorrupcao e o fez a imagem do seu proprio ser; 24 mas pela inveja do diabo a morte entrou no mundo, e aqueles que pertencem ao seu dominio a experimentam. — 8 — Sabedoria de Salomao Capitulo 3 1 Mas as almas dos justos estao na mao de Deus, e nenhum tormento os tocara. 2 Aos olhos dos insensatos pareceram morrer; e a sua partida foi considerada como aflicao, 3 e a sua saida de entre nos como ruina; mas eles estao em paz. 4 Pois ainda que, aos olhos dos homens, tenham sido castigados, a sua esperanca esta cheia de imortalidade. 5 E tendo suportado uma leve correcao, receberao grande bem; porque Deus os provou e os achou dignos de si. 6 Como ouro no forno, ele os provou, e como holocausto perfeito os aceitou. 7 E no tempo da sua visitacao resplandecerao, e como centelhas na palha correrao de um lado para outro. 8 Julgarao as nacoes e terao dominio sobre os povos; e o Senhor reinara sobre eles para todo o sempre. 9 Os que nele confiam compreenderao a verdade, e os fieis permanecerao com ele em amor; porque a graca e a misericordia sao para os seus escolhidos, e ele visitara graciosamente os seus santos. 10 Mas os impios serao retribuidos conforme raciocinaram - eles que desprezaram o justo e se revoltaram contra o Senhor. 11 (Pois quem menospreza a sabedoria e a disciplina e miseravel;) e va e a sua esperanca, e infrutiferos os seus trabalhos, e inuteis as suas obras. 12 Suas mulheres sao insensatas e perversos os seus filhos; 13 maldita e a sua descendencia. Porque feliz e a esteril que e imaculada, aquela que nao concebeu em transgressao; ela tera fruto quando Deus visitar as almas. 14 E feliz e o eunuco que nao cometeu ato iniquo com as suas maos, nem imaginou coisas perversas contra o Senhor; pois lhe sera dado, pela sua fidelidade, um favor especial, e um lugar no santuario do Senhor de grande deleite. 15 Porque os bons trabalhos produzem fruto de grande renome, e a raiz da sabedoria nao pode falhar. 16 Mas os filhos dos adulteros nao chegarao a maturidade, e a semente de uma uniao ilegitima perecera. 17 Pois se viverem longa vida, nao serao tidos em conta alguma, e no fim a sua velhice sera sem honra. 18 E se morrerem cedo, nao terao esperanca, nem consolacao no dia do juizo. 19 Porque o fim de uma geracao injusta e sempre penoso. — 9 — Sabedoria de Salomao Capitulo 4 1 Melhor do que isto e a esterilidade acompanhada de virtude; porque na memoria da virtude ha imortalidade, pois ela e reconhecida tanto por Deus como pelos homens. 2 Quando esta presente, imitam-na, e quando se afasta, anseiam por ela; e por todo o tempo ela marcha coroada em triunfo, vitoriosa na luta por premios imaculados. 3 Mas a prole numerosa dos impios nao sera de proveito algum, e com rebentos bastardos nao lancarao raizes profundas, nem firmarao alicerce seguro. 4 Pois ainda que produzam ramos e florescam por uma estacao, estando instaveis, serao sacudidos pelo vento, e pela violencia dos ventos serao arrancados. 5 Seus ramos se partirao antes de chegarem a maturidade, e seu fruto sera inutil, imaturo para se comer e sem serventia para nada. 6 Pois os filhos gerados ilegitimamente sao testemunhas da iniquidade contra os pais, quando Deus os examinar. 7 Mas o justo, ainda que morra antes do seu tempo, estara em repouso. 8 (Pois a velhice honrosa nao e a que se mede pelo numero de anos, nem se conta pelo numero de dias; 9 mas o entendimento e cabelos brancos para o homem, e uma vida sem mancha e a verdadeira velhice.) 10 Sendo agradavel a Deus, foi por ele amado, e, vivendo entre pecadores, foi trasladado. 11 Foi arrebatado, para que a maldade nao lhe mudasse o entendimento, nem o engano lhe seduzisse a alma. 12 (Pois o fascinio da maldade obscurece as coisas boas, e o frenesi do desejo perverte a mente inocente.) 13 Tendo sido aperfeicoado em pouco tempo, cumpriu longos anos; 14 porque a sua alma era agradavel ao Senhor; por isso ele o apressou para fora do meio da maldade. 16 Mas o justo que morre condenara os impios que vivem, e a juventude rapidamente aperfeicoada condenara os muitos anos da velhice do homem injusto. 15 Mas quanto ao povo, que ve e nao compreende, nem toma isto a serio - 17 pois verao o fim do sabio e nao compreenderao o que o Senhor determinou a seu respeito, e para que o guardou em seguranca - 18 verao e o desprezarao; mas o Senhor se rira deles com escarnio. E depois — 10 — disto se tornarao um cadaver desonrado, e um oprobrio entre os mortos para sempre; 19 porque ele os precipitara, emudecidos, ao chao, e os sacudira desde os fundamentos, e ficarao inteiramente devastados e em angustia, e a sua memoria perecera. — 11 — Sabedoria de Salomao Capitulo 5 20 Virao, quando os seus pecados forem contados, com medo covarde; e as suas obras iniquas os acusarao face a face. 1 Entao o justo se mantera firme com grande ousadia diante daqueles que o afligiram e daqueles que fizeram de nenhum valor os seus trabalhos. 2 Quando o virem, serao perturbados com terrivel medo, e ficarao espantados diante da maravilha da sua salvacao. 3 Dirao entre si, arrependidos, e na angustia do espirito gemerao: 4 "Este e aquele que outrora tivemos em derrisao e fizemos alvo de oprobrio. Nos, insensatos, consideramos a sua vida como loucura e o seu fim sem honra. 5 Como foi contado entre os filhos de Deus! E como a sua sorte esta entre os santos! 6 Na verdade, nos nos desviamos do caminho da verdade, e a luz da justica nao brilhou para nos, e o sol nao nasceu para nos. 7 Fartamo-nos dos caminhos da iniquidade e da destruicao, e percorremos desertos intransitaveis, mas o caminho do Senhor nao o conhecemos. 8 De que nos aproveitou a arrogancia? E que bem nos trouxeram as riquezas e a vangloria? 9 Todas essas coisas passaram como sombra, e como mensagem que corre; 10 como navio que atravessa as aguas encapeladas, do qual, depois de passado, nao se encontra rastro, nem a trilha da sua quilha nas ondas; 11 ou como quando uma ave voa pelos ares, nenhum sinal da sua passagem se encontra, mas o vento leve, acoitado pelo bater das suas asas e fendido pelo impeto violento do movimento das asas, e atravessado, e depois nao se acha nele nenhum sinal da sua passagem; 12 ou como quando se dispara uma flecha contra um alvo, o ar dividido se fecha novamente de imediato, de modo que ninguem sabe por onde ela passou. 13 Assim tambem nos, logo que nascemos, deixamos de ser; e de virtude nao tivemos sinal algum para mostrar, mas fomos inteiramente consumidos na nossa maldade." 14 Porque a esperanca do impio e como a palha levada pelo vento, e como teia de aranha fina arrastada pela tempestade, e como fumaca dispersa pelo vento, e passa como a lembranca de um hospede que se demora apenas um dia. — 12 — 15 Mas os justos vivem para sempre, e no Senhor esta a sua recompensa, e o cuidado deles esta com o Altissimo. 16 Por isso receberao um reino glorioso e um diadema de beleza da mao do Senhor; porque com a sua destra ele os cobrira, e com o seu braco os protegera. 17 Ele tomara o seu zelo como armadura completa, e fara de toda a criacao as suas armas para vinganca contra os seus inimigos. 18 Vestira a justica como couraca, e pora o juizo sincero como elmo; 19 tomara a santidade como escudo invencivel, 20 e afiara a ira severa como espada; e o mundo saira com ele para lutar contra os insensatos. 21 Dardos de relampago voarao com pontaria certeira, e das nuvens, como de um arco bem retesado, saltarao para o alvo. 22 E como de uma maquina de guerra serao arremessadas pedras de granizo cheias de ira; a agua do mar se enfurecera contra eles, e os rios os submergirao severamente. 23 Um sopro poderoso os enfrentara, e como tempestade os joeirara; assim a iniquidade tornara toda a terra desolada, e suas mas acoes derrubarao os tronos dos principes. — 13 — Sabedoria de Salomao Capitulo 6 1 Ouvi, pois, o reis, e entendei; aprendei, juizes dos confins da terra. 2 Dai ouvidos, vos que tendes dominio sobre muitos povos e vos gloriais nas multidoes de nacoes. 3 Porque o vosso dominio vos foi dado pelo Senhor, e a vossa soberania pelo Altissimo; o qual examinara as vossas obras e investigara os vossos designios. 4 Porque, sendo oficiais do seu reino, nao julgastes retamente, nem guardastes a lei, nem andastes segundo o conselho de Deus. 5 Terrivel e velozmente vira ele sobre vos; pois um juizo severo cai sobre os que estao em altas posicoes. 6 Porque o pequeno pode ser perdoado com misericordia, mas os poderosos serao poderosamente investigados. 7 Pois o Senhor Soberano de todos nao fara acepcao de pessoas, nem se intimidara diante da grandeza; porque ele fez tanto o pequeno como o grande, e igualmente cuida de todos. 8 Mas rigoroso e o escrutinio que recai sobre os poderosos. 9 A vos, portanto, o principes, dirijo as minhas palavras, para que aprendais a sabedoria e nao caiais. 10 Pois os que santamente guardaram as coisas santas serao eles mesmos considerados santos; e os que nelas foram instruidos encontrarao o que responder. 11 Ponde, pois, o vosso desejo nas minhas palavras; anelai por elas, e sereis instruidos. 12 A sabedoria e radiante e nao se desvanece; e facilmente e contemplada pelos que a amam, e achada pelos que a buscam. 13 Ela se antecipa aos que desejam conhece-la, fazendo-se conhecer primeiro. 14 Aquele que madruga para busca-la nao tera fadiga, pois a encontrara sentada as suas portas. 15 Porque pensar nela e perfeicao de entendimento, e quem vela por sua causa depressa ficara livre de cuidado. 16 Porque ela vai em busca dos que sao dignos dela, e nos seus caminhos lhes aparece graciosamente, e em cada proposito os encontra. 17 Pois o seu verdadeiro principio e o desejo de instrucao; e o cuidado pela instrucao e amor a ela; 18 e o amor a ela e a observancia das suas leis; e atentar para as suas leis e a garantia da incorrupcao; 19 e a incorrupcao traz para perto de Deus; 20 assim, o desejo da sabedoria conduz a um reino. — 14 — 21 Se, portanto, vos deleitais em tronos e cetros, o principes dos povos, honrai a sabedoria, para que reineis para sempre. 22 Mas o que e a sabedoria e como ela veio a mim, eu vo-lo declararei, e nao vos esconderei os seus misterios; antes a rastrearei desde o seu primeiro principio e trarei ao claro o seu conhecimento, e nao passarei pela verdade. 23 Nem tomarei a inveja corroente por minha companheira, porque a inveja nao tera comunhao com a sabedoria. 24 Mas uma multidao de sabios e a salvacao do mundo, e um rei entendido e a tranquilidade do seu povo. 25 Sede, portanto, instruidos pelas minhas palavras, e nisso tereis proveito. — 15 — Sabedoria de Salomao Capitulo 7 1 Eu mesmo tambem sou mortal, semelhante a todos, e descendente daquele que nasceu da terra, o homem primeiro formado. 2 E no ventre de uma mae fui moldado em carne, no tempo de dez meses, sendo composto no sangue da semente do homem e do prazer que vem com o sono. 3 E eu tambem, quando nasci, respirei o ar comum, e cai sobre a terra que a todos acolhe, proferindo, como todos, por primeiro som o mesmo choro. 4 Em faixas fui criado, e com cuidados vigilantes. 5 Porque nenhum rei teve outro principio; 6 mas todos os homens tem uma so entrada na vida, e igual saida. 7 Por esta razao orei, e me foi dado entendimento; invoquei a Deus, e veio a mim um espirito de sabedoria. 8 Preferi-a a cetros e tronos, e as riquezas nada estimei em comparacao com ela. 9 Nem a comparei a nenhuma pedra preciosa, porque todo o ouro da terra, diante dela, e apenas um pouco de areia, e a prata sera considerada como barro diante dela. 10 Acima da saude e da beleza eu a amei, e escolhi te-la antes que a luz, porque o seu brilho jamais adormece. 11 Mas com ela me vieram todos os bens juntamente, e nas suas maos riquezas inumeraveis; 12 e eu me alegrei com todos eles, porque a sabedoria os conduz, embora eu nao soubesse que ela era a mae deles. 13 Sem malicia aprendi, e sem mesquinhez reparto; nao escondo as suas riquezas. 14 Porque ela e para os homens um tesouro que nao falha, e os que a usam obtem amizade com Deus, recomendados a ele pelos dons que vem da disciplina. 15 Que Deus me de falar com discernimento e conceber pensamentos dignos do que me foi dado; porque ele proprio e quem guia ate a sabedoria e corrige os sabios. 16 Porque na sua mao estamos nos e as nossas palavras, todo o entendimento e toda a pericia nos diversos oficios. 17 Pois ele me deu um conhecimento infalivel das coisas que existem: a constituicao do mundo e a operacao dos elementos; 18 o principio, o fim e o meio dos tempos, as alternancias dos solsticios e as mudancas das estacoes; 19 os ciclos dos anos e as posicoes das estrelas; 20 as naturezas dos seres vivos e as furias dos animais — 16 — selvagens, os poderes dos espiritos e os pensamentos dos homens, as diversidades das plantas e as virtudes das raizes. 21 Todas as coisas, ocultas ou manifestas, eu as aprendi, 22 porque me ensinou aquela que e a artifice de todas as coisas: a sabedoria. Pois ha nela um espirito de pronto entendimento, santo, unico em sua especie, multiforme, sutil, de livre movimento, claro em expressao, imaculado, distinto, invulneravel, amante do bem, agudo, desimpedido, 23 benefico, amigo do ser humano, firme, seguro, livre de cuidado, todo-poderoso, que tudo observa, e que penetra todos os espiritos inteligentes, puros e sutilissimos. 24 Pois a sabedoria e mais agil que qualquer movimento; ela permeia e penetra todas as coisas pela sua pureza. 25 Pois ela e um sopro do poder de Deus e uma clara emanacao da gloria do Todo-Poderoso; portanto, nada que e impuro pode nela encontrar entrada. 26 Pois ela e um reflexo da luz eterna, e um espelho sem mancha da acao de Deus, e uma imagem da sua bondade. 27 E ela, sendo uma so, tudo pode; e permanecendo em si mesma, renova todas as coisas; e de geracao em geracao, passando para as almas santas, faz delas amigos de Deus e profetas. 28 Pois Deus nao ama senao aquele que habita com a sabedoria. 29 Porque ela e mais formosa do que o sol, e supera todas as constelacoes de estrelas; comparada com a luz, e superior a ela; 30 pois a luz do dia sucede a noite, mas contra a sabedoria o mal nao prevalece. — 17 — Sabedoria de Salomao Capitulo 8 1 Ela se estende de um extremo ao outro do mundo com plena forca e ordena todas as coisas bem. 2 A ela amei e busquei desde a minha juventude, e procurei toma-la por esposa, e enamorei-me da sua beleza. 3 Ela proclama a sua nobreza, pois lhe e dado viver com Deus, e o Senhor Soberano de todos a amou. 4 Porque ela e iniciada no conhecimento de Deus e escolhe para ele as suas obras. 5 Se as riquezas sao uma posse desejavel na vida, que ha de mais rico do que a sabedoria, que tudo opera? 6 E se o entendimento trabalha, quem mais do que a sabedoria e artifice das coisas que existem? 7 E se um homem ama a justica, os frutos do trabalho da sabedoria sao virtudes, porque ela ensina a temperanca e a prudencia, a justica e a coragem - e nada ha na vida mais proveitoso para os homens do que estas. 8 E se um homem anseia por muita experiencia, ela conhece as coisas antigas e adivinha as que hao de vir; compreende as sutilezas dos discursos e as interpretacoes dos enigmas; preve sinais e prodigios, e os desfechos das estacoes e dos tempos. 9 Resolvi, portanto, toma-la para morar comigo, sabendo que ela me daria bons pensamentos para conselho e me encorajaria nos cuidados e na aflicao. 10 Por causa dela terei gloria entre as multidoes e honra diante dos anciaos, apesar de ser jovem. 11 Serei tido como de discernimento perspicaz quando julgar, e na presenca dos principes serei admirado. 12 Quando eu estiver calado, esperarao por mim; e quando abrir os labios, prestarao atencao; e se eu continuar falando, porao a mao sobre a boca. 13 Por causa dela terei imortalidade, e deixarei aos que vierem depois de mim uma memoria eterna. 14 Governarei povos, e nacoes me serao sujeitas. 15 Principes temiveis me temerao quando ouvirem falar de mim; entre o meu povo mostrar-me-ei bom governante, e na guerra corajoso. 16 Quando entrar na minha casa, encontrarei descanso com ela; porque a convivencia com ela nao tem amargura, e viver com ela nao tem dor, mas alegria e gozo. — 18 — 17 Quando considerei estas coisas em mim mesmo, e ponderando no meu coracao que no parentesco com a sabedoria esta a imortalidade, 18 e na sua amizade ha bom deleite, e nos trabalhos das suas maos ha riqueza que nao falha, e na assidua comunhao com ela ha entendimento, e grande renome em ter convivencia com as suas palavras, pus-me a buscar como toma-la para mim. 19 Eu era uma crianca de boa indole, e uma boa alma me coube em sorte; 20 antes, sendo bom, vim para um corpo imaculado. 21 Mas percebendo que eu nao poderia possuir a sabedoria se Deus nao ma desse - e saber de quem vem a graca ja era fruto de entendimento -, supliquei ao Senhor e lhe roguei, e de todo o meu coracao disse: — 19 — Sabedoria de Salomao Capitulo 9 1 O Deus dos pais, e Senhor que guardas a tua misericordia, que fizeste todas as coisas pela tua palavra, 2 e pela tua sabedoria formaste o homem para que tivesse dominio sobre as criaturas feitas por ti, 3 e governasse o mundo em santidade e justica, e exercesse o juizo em retidao de alma - 4 da-me a sabedoria, aquela que se senta junto a ti no teu trono, e nao me rejeites dentre os teus servos. 5 Porque eu sou teu servo e filho da tua serva, homem fraco e de curta vida, e de pouca capacidade para compreender o juizo e as leis. 6 Pois ainda que um homem seja perfeito entre os filhos dos homens, se a sabedoria que vem de ti nao estiver com ele, nao sera tido em conta alguma. 7 Tu me escolheste entre os meus irmaos para ser rei do teu povo e fazer justica aos teus filhos e filhas. 8 Ordenaste que se edificasse um santuario no teu santo monte, e um altar na cidade da tua habitacao, copia do santo tabernaculo que preparaste de antemao desde o principio. 9 E contigo esta a sabedoria, que conhece as tuas obras e estava presente quando fazias o mundo, e que compreende o que e agradavel aos teus olhos e o que e reto segundo os teus mandamentos. 10 Envia-a dos santos ceus, e do trono da tua gloria manda-a vir, para que, estando comigo, trabalhe comigo, e eu saiba o que te e bem agradavel. 11 Pois ela conhece todas as coisas e as compreende, e nos meus atos me guiara com sobriedade, e me guardara na sua gloria. 12 E assim serao as minhas obras aceitaveis, e julgarei o teu povo com justica, e serei digno do trono de meu pai. 13 Pois que homem conhecera o conselho de Deus? Ou quem concebera o que o Senhor quer? 14 Porque os pensamentos dos mortais sao timidos, e os nossos intentos propensos a falhar. 15 Pois o corpo corruptivel pesa sobre a alma, e a morada terrena oprime a mente cheia de cuidados. 16 E dificilmente adivinhamos as coisas que estao na terra, e com trabalho encontramos as que estao ao alcance da mao; mas as coisas que estao nos ceus, quem jamais as desvendou? 17 E quem ganhou conhecimento do teu conselho, se tu nao lhe deste sabedoria e nao enviaste do alto o teu santo espirito? 18 E assim foram corrigidos os caminhos dos que estao na terra, e os homens aprenderam as — 20 — coisas que te sao agradaveis; e pela sabedoria foram salvos. — 21 — Sabedoria de Salomao Capitulo 10 1 Ela guardou ate ao fim o pai do mundo, primeiro a ser formado, que foi criado sozinho, e o livrou da sua transgressao, 2 e lhe deu forcas para ter dominio sobre todas as coisas. 3 Mas quando um homem injusto se afastou dela na sua ira, pereceu ele mesmo na furia com que matou o seu irmao. 4 E quando por causa dele a terra estava sendo afogada pelo diluvio, a sabedoria de novo a salvou, guiando o curso do justo por meio de um pobre pedaco de madeira. 5 Alem disso, quando as nacoes, consentindo juntas na maldade, foram confundidas, a sabedoria reconheceu o justo e o conservou irrepreensivel diante de Deus, e o manteve forte quando o seu coracao ansiava pelo seu filho. 6 Enquanto os impios pereciam, a sabedoria livrou um justo, quando fugiu do fogo que desceu do ceu sobre a Pentapolis. 7 Da maldade deles ainda da testemunho uma terra desolada que ainda fumega, e plantas que dao frutos que nao amadurecem; e uma alma incredula tem ali um memorial, uma coluna de sal que ainda permanece. 8 Pois, tendo passado ao largo da sabedoria, nao somente foram incapacitados de reconhecer o que e bom, mas tambem deixaram a vida humana um monumento da sua insensatez, de modo que aquilo em que pecaram nao poderia deixar de ser conhecido. 9 Mas a sabedoria livrou das tribulacoes aqueles que a serviam. 10 Quando um justo fugia da ira de um irmao, a sabedoria o guiou por caminhos retos; mostrou-lhe o reino de Deus e deu-lhe conhecimento das coisas santas; prosperou-o nos seus trabalhos e multiplicou os frutos do seu labor. 11 Quando na sua cobica os homens o trataram duramente, ela ficou ao seu lado e o enriqueceu. 12 Guardou-o dos inimigos, e dos que lhe armavam ciladas o manteve em seguranca, e no seu duro combate guiou-o a vitoria, para que soubesse que a piedade e mais poderosa do que tudo. — 22 — 13 Quando um justo foi vendido, a sabedoria nao o abandonou, mas do pecado o livrou; desceu com ele ao calabouco, 14 e nas cadeias nao o deixou, ate que lhe trouxe o cetro de um reino e autoridade sobre os que o tiranirzavam; mostrou tambem que eram falsos os que o tinham acusado, e deu-lhe gloria eterna. 15 Ela livrou um povo santo e uma descendencia irrepreensivel de uma nacao de opressores. 16 Entrou na alma de um servo do Senhor e enfrentou reis terriveis com prodigios e sinais. 17 Deu aos santos a recompensa dos seus trabalhos; guiou-os por um caminho maravilhoso, e tornou-se para eles cobertura durante o dia e luz de estrelas durante a noite. 18 Transportou-os pelo Mar Vermelho e conduziu-os por muitas aguas; 19 mas os seus inimigos ela afogou, e do fundo do abismo os lancou para cima. 20 Por isso os justos despojaram os impios e cantaram louvores ao teu santo nome, o Senhor, e exaltaram de comum acordo a tua mao que lutou por eles; 21 porque a sabedoria abriu a boca dos mudos e fez as linguas dos pequeninos falarem claramente. — 23 — Sabedoria de Salomao Capitulo 11 1 Ela prosperou as suas obras pela mao de um santo profeta. 2 Eles viajaram por um deserto sem habitantes, e em regioes sem caminhos armaram as suas tendas. 3 Resistiram aos inimigos e repeliram os adversarios. 4 Tiveram sede, e clamaram a ti, e lhes foi dada agua da rocha dura, e alivio da sua sede da pedra firme. 5 Pois pelas mesmas coisas por que os seus inimigos foram castigados, por essas mesmas eles, na sua necessidade, foram beneficiados. 6 Quando o inimigo foi perturbado com sangue coagulado em vez de uma fonte perene de rio, para punir o decreto de matanca dos recem-nascidos, 7 tu lhes deste agua abundante alem de toda esperanca, 8 tendo-lhes mostrado pela sede que haviam sofrido como castigaste os adversarios. 9 Pois quando foram provados, embora castigados apenas com misericordia, aprenderam como os impios eram atormentados, sendo julgados com ira. 10 Porque a estes, como pai que admoesta, tu os provaste; mas aqueles, como rei severo que condena, tu os investigaste. 11 E tanto os que estavam longe dos justos como os que estavam perto deles igualmente sofriam; 12 pois dupla aflicao os apanhou, e um gemido pela lembranca das coisas passadas. 13 Porque quando ouviram que pelos mesmos meios pelos quais tinham sido castigados os outros haviam sido beneficiados, sentiram a presenca do Senhor; 14 pois aquele que muito antes fora expulso com odio, deixaram de zombar, e se maravilharam com o que acontecera, tendo padecido sede de modo diferente do que os justos. 15 Mas em retribuicao das imaginacoes insensatas da sua iniquidade, pelas quais foram levados a adorar repteis irracionais e vermes despreziveis, tu enviaste sobre eles uma multidao de criaturas irracionais como vinganca, 16 para que aprendessem que, pelas mesmas coisas por que o homem peca, por essas mesmas e castigado. 17 Pois a tua mao todo-poderosa, que criou o mundo a partir de materia informe, nao carecia de meios para enviar sobre eles uma multidao de ursos, ou leoes ferozes, 18 ou bestas selvagens recem-criadas, cheias de furia, de especie desconhecida, ou exalando um sopro de halito — 24 — de fogo, ou lancando pelas narinas fumaca fetida, ou relampejando terriveis centelhas dos seus olhos - 19 as quais tinham poder nao apenas de consumi-los pela sua violencia, mas de destrui-los ate pelo terror da sua aparencia. 20 E mesmo sem estas coisas poderiam ter caido por um unico sopro, perseguidos pela Justica e dispersos pelo sopro do teu poder. Mas por medida, numero e peso tu ordenaste todas as coisas. 21 Pois ser grandemente forte e teu em todo o tempo; e a forca do teu braco, quem podera resistir? 22 Porque o mundo inteiro diante de ti e como grao numa balanca, e como gota de orvalho que pela manha desce sobre a terra. 23 Mas tu tens misericordia de todos, porque tens poder para fazer todas as coisas, e toleras os pecados dos homens para que se arrependam. 24 Porque tu amas todas as coisas que existem e nao abominas nada do que fizeste; pois nunca terias formado coisa alguma se a odiasses. 25 E como teria subsistido algo, se tu nao o tivesses querido? Ou como se conservaria aquilo que nao foi chamado por ti? 26 Mas tu poupas todas as coisas, porque sao tuas, o Senhor Soberano, tu que amas as almas. — 25 — Sabedoria de Salomao Capitulo 12 1 Pois o teu espirito incorruptivel esta em todas as coisas. 2 Por isso castigas pouco a pouco os que se desviam do caminho reto, e pondo-os em lembranca pelas mesmas coisas em que pecam, tu os admoestas, para que, libertando-se da sua maldade, creiam em ti, o Senhor. 3 Pois em verdade os antigos habitantes da tua terra santa, 4 a quem odiaste porque praticavam obras detestaveis de encantamentos e ritos impios - 5 impiedosos matadores de criancas, e convivas sacrificais de carne e sangue humanos, 6 confederados numa irmandade impia, e assassinos dos seus proprios filhos indefesos - 7 era teu designio destrui-los pelas maos dos nossos pais, para que a terra que aos teus olhos e a mais preciosa de todas recebesse uma digna colonia de servos de Deus. 8 Contudo, mesmo a estes poupaste como seres humanos, e enviaste vespas como precursoras do teu exercito, para destrui-los pouco a pouco. 9 Nao que fosses incapaz de submeter os impios sob a mao dos justos em batalha, ou de destrui-los de uma vez por bestas terriveis ou por uma unica palavra severa; 10 mas julgando-os pouco a pouco, deste-lhes ocasiao de arrependimento, embora soubesses que a sua natureza era ma e a sua maldade inata, e que o seu modo de pensar jamais se mudaria. 11 Porque eram uma semente maldita desde o principio; nem foi por temor de alguem que perdoaste os seus pecados. 12 Pois quem dira: "Que fizeste?" Ou quem resistira ao teu juizo? E quem te acusara pela destruicao das nacoes que tu fizeste? Ou quem se apresentara diante de ti como vingador dos injustos? 13 Porque nao ha outro Deus alem de ti que cuide de todos, a quem tu devesses mostrar que nao julgaste injustamente; 14 nem rei ou principe te enfrentara para interceder por aqueles a quem castigaste. 15 Mas sendo justo, todas as coisas governas com justica, considerando alheio ao teu poder condenar aquele que nao merece castigo. 16 Pois a tua forca e o principio da justica, e a tua soberania sobre todos te faz poupar a todos. 17 Porque quando os homens nao creem que es perfeito em poder, tu mostras a tua forca, e naqueles que a conhecem poes a nu a sua audacia. 18 Mas tu, — 26 — sendo soberano sobre a tua forca, julgas com mansidao, e com grande indulgencia nos governas; pois o poder e teu sempre que o quiseres. 19 Por tais obras ensinaste o teu povo que o justo deve ser amigo dos homens; e fizeste os teus filhos terem boa esperanca, porque das arrependimento quando os homens pecam. 20 Pois se os inimigos dos teus servos, os que eram merecedores de morte, tu castigaste com tanta cautela e indulgencia, dando-lhes tempo e lugar para escaparem da sua maldade, 21 com quanto maior cuidado julgaste os teus filhos, aos cujos pais fizeste juramentos e aliancas de boas promessas! 22 Enquanto, portanto, nos castigas, acoitas os nossos inimigos dez mil vezes mais, para que ponderemos a tua bondade quando julgamos, e quando somos julgados esperemos misericordia. 23 Por isso tambem os injustos que viviam em insensatez, tu os atormentaste pelas suas proprias abominacoes. 24 Pois em verdade se desviaram muito nos caminhos do erro, tomando por deuses animais que mesmo entre os seus inimigos eram tidos em desonra, enganados como criancas insensatas. 25 Por isso, como a criancas sem razao, tu lhes enviaste o teu juizo para zombar deles. 26 Mas os que nao se deixaram admoestar por uma correcao que era como brincadeira de crianca experimentarao um juizo digno de Deus. 27 Pois porque pelas suas proprias aflicoes foram levados a indignacao contra aquelas criaturas que julgavam ser deuses, sendo castigados por meio delas, viram e reconheceram como verdadeiro Deus aquele que antes se recusavam a conhecer; por isso tambem veio sobre eles a pena maxima. — 27 — Sabedoria de Salomao Capitulo 13 1 Pois por natureza todos os homens eram insensatos e nao tinham percepcao de Deus, e das coisas boas que se veem nao tiveram poder para conhecer aquele que e, nem pela atencao as obras reconheceram o Artifice; 2 mas ou o fogo, ou o vento, ou o ar veloz, ou os astros em seus giros, ou as aguas impetuosas, ou os luminares do ceu, tomaram por deuses que governam o mundo. 3 Se pela beleza deles os tomaram por deuses, saibam quanto melhor e o Senhor deles; pois o primeiro autor da beleza os criou. 4 Mas se pelo espanto diante do seu poder e influencia, compreendam por eles quao mais poderoso e aquele que os formou. 5 Porque da grandeza e da beleza das criaturas se forma por correspondencia a imagem do seu primeiro Criador. 6 Todavia, para estes homens o castigo e menor, porque talvez apenas errem enquanto buscam a Deus e desejam encontra-lo. 7 Pois, vivendo entre as suas obras, investigam diligentemente e creem no que veem, porque as coisas que contemplam sao belas. 8 Mas, ainda assim, nem eles sao desculpaveis. 9 Porque se tiveram capacidade de saber tanto que puderam explorar o curso das coisas, como e que nao acharam mais cedo o Senhor Soberano destas obras? 10 Mas miseraveis foram eles, e em coisas mortas depositaram as suas esperancas, os que chamaram deuses as obras das maos dos homens - ouro e prata trabalhados com arte cuidadosa, e imagens de animais, ou uma pedra inutil, obra de mao antiga. 11 E se algum carpinteiro, tendo derrubado uma arvore que pode manejar, lhe tira habilmente toda a casca, e moldando-a com destreza faz dela um utensilio para o servico da vida, 12 e com o que resta prepara a sua comida e se farta; 13 e tomando o resto, que para nada serve - um pedaco de madeira torto e cheio de nos -, esculpe-o com a diligencia da sua ociosidade e da-lhe forma com a pericia da sua indolencia, dando-lhe entao a aparencia da imagem de um homem, 14 ou fazendo-o a semelhanca de algum animal insignificante, cobrindo-o de vermelhao e tingindo-o de vermelho com tinta, e cobrindo cada mancha que nele ha; 15 e tendo feito para ele uma camara digna, coloca-o na parede e fixa-o com ferro. 16 Para que nao caia, portanto, cuida dele, sabendo que nao — 28 — pode ajudar-se a si mesmo (pois na verdade e uma imagem e tem necessidade de ajuda). 17 E quando faz oracao pelos seus bens, pelo seu casamento e pelos seus filhos, nao se envergonha de falar ao que nao tem vida. 18 Pela saude invoca o que e fraco, e pela vida suplica ao que esta morto, e por socorro implora ao que nao tem experiencia alguma, e por uma boa viagem ao que nao pode sequer usar os pes; 19 e para ganhos, negocios e bom sucesso das suas maos, pede poder aquele que com as suas maos e absolutamente impotente. — 29 — Sabedoria de Salomao Capitulo 14 1 De novo, alguem que se prepara para navegar e atravessar as ondas furiosas invoca um pedaco de madeira menos solido do que o navio que o carrega. 2 Porque aquele navio, a fome de lucro o concebeu, e um artifice com a sua habilidade o construiu. 3 Mas a tua providencia, o Pai, o guia ao longo do caminho, porque mesmo no mar deste uma estrada, e nas ondas um caminho seguro, 4 mostrando que podes salvar de todo perigo, de modo que ate sem arte um homem pode fazer-se ao mar. 5 E e tua vontade que as obras da tua sabedoria nao fiquem ociosas; por isso tambem os homens confiam as suas vidas a um pequeno pedaco de madeira, e passando pela vaga numa jangada sao trazidos a salvo a terra. 6 Pois nos tempos antigos tambem, quando os orgulhosos gigantes pereciam, a esperanca do mundo, refugiando-se numa jangada, deixou ao genero humano uma semente de geracoes vindouras, guiada a tua mao no leme. 7 Porque bendita e a madeira por meio da qual vem a justica. 8 Mas o idolo feito por maos humanas e maldito, ele e quem o fez; porque dele foi o trabalho, e a coisa corruptivel foi chamada deus. 9 Porque igualmente odiosos a Deus sao tanto o impio que age como a sua impiedade. 10 Pois em verdade aquilo que foi feito sera castigado juntamente com quem o fez. 11 Por isso tambem entre os idolos das nacoes havera visitacao, porque, embora formados de coisas que Deus criou, foram feitos abominacao, e tropeco para as almas dos homens, e laco para os pes dos insensatos. 12 Pois a invencao dos idolos foi o principio da fornicacao, e a criacao deles a corrupcao da vida. 13 Porque nem existiam desde o principio, nem existirao para sempre. 14 Pois pelo vao erro dos homens entraram no mundo, e por isso lhes foi destinado um fim rapido. 15 Porque um pai, consumido por luto prematuro, fazendo uma imagem do filho cedo demais arrebatado, agora honrava como deus aquele que entao era um cadaver, e transmitia aos que estavam sob a sua autoridade misterios e ritos solenes. 16 Depois, o costume impio, fortalecendo-se com o tempo, foi guardado como lei, e por mandamento de principes as imagens esculpidas eram adoradas. 17 E — 30 — quando os homens nao podiam honra-los pessoalmente por habitarem longe, imaginando a semelhanca de longe, fizeram uma imagem visivel do rei a quem honravam, para que pelo seu zelo pudessem lisonjear o ausente como se estivesse presente. 18 Mas a ambicao do artifice impeliu ate os que nao o conheciam a um grau ainda mais elevado de adoracao. 19 Porque ele, desejando talvez agradar ao governante, forcou a sua arte a dar a imagem maior beleza; 20 e a multidao, seduzida pela graca da obra, agora considerava como objeto de culto aquele a quem pouco antes honrara como homem. 21 E isto se tornou uma cilada oculta para a vida, porque os homens, sob o poder da calamidade ou da tirania, investiram pedras e madeiras com o Nome incomunicavel. 22 Depois, nao lhes bastou errar no conhecimento de Deus; mas, vivendo tambem em grande conflito por causa da ignorancia, a essa multidao de males chamam paz. 23 Pois, ou matando criancas em ritos solenes, ou celebrando misterios secretos, ou realizando orgias freneticas de estranhas ordenancas, 24 ja nao guardam nem a vida nem a pureza do casamento, mas um mata o outro traicoeiramente, ou o aflige com adulterio. 25 E todas as coisas estao confusamente cheias de sangue e assassinio, roubo e engano, 26 corrupcao, deslealdade, tumulto, perjurio, perturbacao dos bons, ingratidao pelos beneficios recebidos, contaminacao das almas, confusao dos sexos, desordem no casamento, adulterio e devassidao. 27 Porque o culto dos idolos inominaveis e o principio, a causa e o fim de todo mal. 28 Pois os seus adoradores ou se divertem ate a loucura, ou profetizam mentiras, ou vivem injustamente, ou levianamente se perjuram. 29 Porque, pondo a sua confianca em idolos sem vida, juram falsamente com maldade e nao esperam ser lesados. 30 Mas por ambos os pecados vira sobre eles o justo castigo: porque tiveram maus pensamentos sobre Deus ao darem atencao a idolos, e juraram injustamente com engano, desprezando a santidade. 31 Pois nao e o poder daqueles por quem os homens juram, mas a Justica, que atenta para os que pecam, que sempre castiga a transgressao dos injustos. — 31 — Sabedoria de Salomao Capitulo 15 1 Mas tu, nosso Deus, es gracioso e verdadeiro, longanimo, e com misericordia governas todas as coisas. 2 Pois mesmo se pecarmos, somos teus, conhecendo o teu dominio; mas nao pecaremos, sabendo que somos considerados teus. 3 Porque conhecer-te e justica perfeita, e conhecer o teu dominio e a raiz da imortalidade. 4 Pois nenhum ardil maligno do homem nos desencaminhou, nem o trabalho infrutifero dos pintores - uma forma manchada com cores variadas, 5 cuja visao leva os insensatos a cobica, que desejam a forma de uma imagem morta que nao tem folego. 6 Amantes de coisas mas, e dignos de tais coisas por esperanca, sao tanto os que as fazem, como os que as desejam, como os que as adoram. 7 Pois um oleiro, amassando terra mole, laboriosamente molda cada vaso para o nosso servico; e da mesma argila modela tanto os vasos que servem para usos limpos como os de uso contrario, todos da mesma maneira; mas qual sera o uso de cada tipo, o proprio artesao e que decide. 8 E tambem, com trabalho maldoso, molda um deus vao da mesma argila - ele que, pouco antes, foi feito da terra e em breve voltara a terra de onde foi tirado, quando a alma que lhe foi emprestada for novamente reclamada. 9 Contudo, a sua preocupacao nao e que as suas forcas hao de falhar, nem que a sua vida e curta; mas rivaliza com os trabalhadores em prata e ouro e copia os moldadores de bronze, e considera gloria moldar coisas falsas. 10 O seu coracao e cinza, e a sua esperanca de menos valor do que a terra, e a sua vida de menos honra do que o barro; 11 porque ignorou aquele que o moldou, e aquele que lhe inspirou uma alma ativa e lhe soprou um espirito vital. 12 Mas considerou a nossa vida como um jogo e o nosso modo de vida como uma feira lucrativa; pois, diz ele, e preciso ganhar de onde se puder, mesmo por meios maus. 13 Porque este homem, mais do que todos os outros, sabe que peca, quando da mesma materia terrosa faz tanto vasos frageis como imagens esculpidas. 14 Mas os mais insensatos de todos, e de alma mais fraca do que a de uma crianca, foram os inimigos do teu povo, que os oprimiram; 15 porque todos os idolos das nacoes consideraram como deuses - os quais nao tem olhos para ver, nem narinas para respirar, — 32 — nem ouvidos para ouvir, nem dedos para tocar, e os seus pes sao inuteis para andar. 16 Pois foi um homem que os fez, e alguem cujo proprio espirito e emprestado os moldou; porque nenhum homem tem poder para moldar um deus semelhante a si mesmo. 17 Mas, sendo mortal, faz com maos iniquas uma coisa morta; pois ele e melhor do que as coisas que adora: dos dois, ele de fato teve vida, mas elas nunca. 18 E adoram ate as criaturas mais odiosas; pois, comparadas quanto a falta de senso, estas sao piores do que todas as outras. 19 Nem, vistas ao lado de outras criaturas, sao belas, de modo que alguem as desejasse; mas sao excluidas do louvor de Deus e da sua bencao. — 33 — Sabedoria de Salomao Capitulo 16 1 Por esta razao foram estes homens dignamente castigados por meio de criaturas semelhantes as que adoravam, e atormentados por uma multidao de bichos. 2 Em vez de tal castigo, tu, concedendo beneficios ao teu povo, preparaste codornizes como alimento, comida de raro sabor, para saciar o desejo do seu apetite; 3 a fim de que os teus inimigos, quando desejassem comer, pela repugnancia das criaturas enviadas entre eles, rejeitassem ate o alimento necessario; mas estes, o teu povo, tendo sofrido carencia por breve tempo, pudessem mesmo participar de comida de raro sabor. 4 Porque era necessario que sobre aqueles tiranos viesse uma penuria inexoravel, mas a estes bastasse mostrar como os seus inimigos eram atormentados. 5 Pois mesmo quando o terrivel furor de feras selvagens veio sobre o teu povo, e estavam perecendo pelas mordidas de serpentes tortuosas, a tua ira nao continuou ate ao fim. 6 Mas para admoestacao foram perturbados por pouco tempo, tendo um sinal de salvacao para os por em lembranca do mandamento da tua lei. 7 Porque aquele que se voltava para ele nao era salvo pelo que via, mas por ti, o Salvador de todos. 8 E nisto convenceste os nossos inimigos de que tu es aquele que livra de todo mal. 9 Porque a eles as mordidas de gafanhotos e moscas os mataram, e nao se achou cura para a sua vida, porque eram dignos de ser castigados por tais criaturas. 10 Mas os teus filhos, nem os dentes de dragoes venenosos os venceram, porque a tua misericordia veio em seu socorro e os curou. 11 Pois foram mordidos para que se lembrassem das tuas palavras, e foram rapidamente salvos, para que, caindo em profundo esquecimento, nao ficassem insensiveis a tua beneficencia. 12 Porque na verdade nem erva nem cataplasma emoliente lhes restaurou a saude, mas a tua palavra, o Senhor, que cura todas as coisas. 13 Porque tu tens poder sobre a vida e a morte, e conduzes as portas do Hades e de la fazes voltar. 14 Mas embora o homem possa matar pela sua maldade, o espirito que partiu ele nao faz voltar, nem da libertacao a alma que o Hades recebeu. 15 Mas a tua mao e impossivel escapar. 16 Porque os impios, recusando-se a conhecer-te, foram flagelados pela forca do teu braco, perseguidos com chuvas — 34 — estranhas, granizo e tempestades inexoraveis, e inteiramente consumidos pelo fogo. 17 Pois - o que era mais maravilhoso de tudo - na agua, que tudo apaga, o fogo agia com ainda mais poder; porque o mundo combate pelos justos. 18 Pois as vezes a chama perdia a sua intensidade, para nao queimar as criaturas enviadas contra os impios, mas para que estes vissem e percebessem que eram perseguidos pelo juizo de Deus; 19 e outras vezes, mesmo no meio da agua, ardia alem do poder do fogo, para destruir os frutos de uma terra injusta. 20 Em vez disso, deste ao teu povo alimento de anjos para comer, e pao pronto do ceu lhes proporcionaste sem trabalho, pao que tinha a virtude de todo sabor agradavel e que agradava a todo paladar. 21 Porque a tua substancia manifestou a tua docura para com os teus filhos, servindo ao desejo de quem comia e transformando-se segundo a escolha de cada um. 22 Mas a neve e o gelo suportaram o fogo sem derreter, para que os homens soubessem que o fogo estava destruindo os frutos dos inimigos, ardendo no granizo e relampejando nas chuvas; 23 e que este elemento, por sua vez, para que os justos fossem nutridos, havia ate esquecido o seu poder. 24 Porque a criacao, servindo a ti, seu Criador, intensifica a sua forca contra os injustos para castigo, e afrouxa-a em favor dos que confiam em ti para beneficencia. 25 Por isso, tambem naquele tempo, convertendo-se em todas as formas, servia a tua bondade que a todos nutre, conforme o desejo dos que suplicavam; 26 para que os teus filhos, a quem amaste, o Senhor, aprendessem que nao e o crescimento dos frutos da terra que nutre o homem, mas a tua palavra que preserva os que confiam em ti. 27 Pois aquilo que nao podia ser destruido pelo fogo, aquecido por um simples raio de sol, derretia-se; 28 para que se soubesse que devemos levantar-nos antes do sol para te dar gracas, e suplicar-te ao despontar da luz. 29 Porque a esperanca do ingrato derretera como a geada do inverno e escoara como agua que nao tem utilidade. — 35 — Sabedoria de Salomao Capitulo 17 1 Pois grandes sao os teus juizos e dificeis de interpretar; por isso as almas indisciplinadas se desviaram. 2 Porque quando homens iniquos supunham ter subjugado um povo santo, eles mesmos, prisioneiros das trevas e acorrentados nos grilhoes de uma longa noite, encerrados sob os seus tetos, jaziam exilados da eterna providencia. 3 Pois enquanto pensavam que estavam ocultos nos seus pecados secretos, foram dispersos uns dos outros por uma cortina escura de esquecimento, feridos de terrivel pavor e muito perturbados por formas espectrais. 4 Porque nem os recantos que os abrigavam os guardavam dos temores, mas sons que se precipitavam ressoavam ao seu redor, e fantasmas apareciam, sombrios, com rostos sem sorriso. 5 E nenhuma forca de fogo podia dar-lhes luz, nem as chamas mais brilhantes das estrelas conseguiam iluminar aquela noite tenebrosa. 6 Aparecia-lhes apenas o lampejo de um fogo que se acendia por si, cheio de temor; e no terror daquela visao, na qual nao podiam fitar os olhos, julgavam que a aparicao era pior do que realmente era. 7 E os embustes da arte magica jaziam por terra, e vergonhosa foi a repreensao da sua alardeada sabedoria. 8 Pois os que prometiam afastar terrores e perturbacoes das almas enfermas estavam eles mesmos doentes de um medo risivel. 9 Porque, embora nenhuma coisa terrivel os assustasse, 10 ainda assim, apavorados pelos rastejares de insetos e sibilos de serpentes, pereciam de tremor, recusando ate olhar para o ar, do qual nao se podia escapar de lado algum. 11 Porque a maldade e em si mesma covarde e da testemunho da sua propria condenacao; e, pressionada pela consciencia, sempre antecipa o pior. 12 Pois o medo nao e senao uma rendicao dos socorros que a razao oferece; 13 e quando de dentro do coracao a expectativa e derrubada, considera a sua ignorancia pior do que a causa que traz o tormento. 14 Mas eles, durante toda aquela noite - que na verdade era impotente e que veio sobre eles dos recessos do impotente Hades -, todos dormindo o mesmo sono, 15 ora eram — 36 — perseguidos por aparicoes monstruosas, ora paralisados pela rendicao da sua alma; pois medo subito e inesperado caiu sobre eles. 16 Assim, cada um, caindo no lugar onde estava, ficou preso naquele carcere que nao tinha barras de ferro. 17 Fosse ele lavrador, ou pastor, ou trabalhador cujas lides eram no ermo, foi surpreendido e suportou aquela necessidade inevitavel, porque todos ficaram presos pela mesma cadeia de trevas. 18 Fosse um vento assobiando, ou o canto melodioso dos passaros entre os ramos frondosos, ou o cadenciar das aguas correndo com violencia, 19 ou o estrepito aspero de rochas desabando, ou a corrida veloz de animais saltando invisiveis, ou a voz de feras selvagens rugindo asperamente, ou o eco que rebotava das cavidades dos montes - todas essas coisas os paralisavam de terror. 20 Porque o mundo inteiro estava iluminado com luz clara e ocupado com trabalhos desimpedidos; 21 enquanto sobre eles sozinhos se estendia uma noite pesada, imagem das trevas que depois os receberiam; mas ainda mais pesados do que as trevas eram eles para si mesmos. — 37 — Sabedoria de Salomao Capitulo 18 1 Mas para os teus santos havia grande luz; e os egipcios, ouvindo a sua voz mas nao vendo a sua forma, invejavam-nos porque nao haviam sofrido; 2 e porque agora nao os prejudicavam, embora antes por eles fossem maltratados, agradeciam; e pela sua antiga hostilidade pediam perdao. 3 Enquanto tu proveste ao teu povo uma coluna de fogo ardente, para ser guia na jornada desconhecida, e ao mesmo tempo um sol bondoso para o seu glorioso exilio. 4 Pois bem mereciam os egipcios ser privados da luz e encarcerados nas trevas - eles que tinham mantido em cativeiro os teus filhos, por meio dos quais a luz incorruptivel da lei haveria de ser dada a raca dos homens. 5 Depois de terem deliberado matar os recem-nascidos dos santos, e quando uma unica crianca foi exposta e salva, para castiga-los tu lhes tiraste uma multidao dos seus filhos e destruiste todo o seu exercito junto numa grande inundacao. 6 Daquela noite foram os nossos pais avisados de antemao, para que, tendo conhecimento seguro, se animassem pelos juramentos em que confiaram. 7 Assim pelo teu povo foi esperada a salvacao dos justos e a destruicao dos inimigos. 8 Porque, da mesma forma que tomaste vinganca dos adversarios, pelo mesmo ato nos glorificaste e nos chamaste a ti. 9 Pois filhos santos de homens bons ofereceram sacrificio em segredo, e de comum acordo aceitaram sobre si o pacto da lei divina - que os santos participariam igualmente das mesmas bencaos e perigos - cantando desde ja os canticos de louvor dos pais. 10 Mas em discordancia ressoava o clamor dos inimigos, e uma voz lastimosa de lamentacao pelos filhos se espalhava. 11 E servo junto com senhor foram castigados com igual e justa sentenca, e plebeu sofrendo o mesmo que o rei; 12 sim, todos juntos, sob uma mesma forma de morte, tinham consigo cadaveres incontaveis; pois os vivos nao bastavam sequer para os sepultar, ja que num unico golpe a sua mais nobre descendencia foi destruida. 13 Porque, embora tivessem descido de tudo por causa dos seus encantamentos, diante da destruicao dos primogenitos confessaram que aquele povo era filho de Deus. — 38 — 14 Porque enquanto um silencio pacifico envolvia todas as coisas, e a noite na sua rapidez estava no meio do seu curso, 15 a tua palavra todo-poderosa saltou do ceu, do trono real, como guerreiro severo, para o meio da terra condenada, 16 trazendo como espada afiada o teu mandamento irrevogavel; e de pe, encheu tudo de morte, e, tocando o ceu, pisava a terra. 17 Entao, de imediato, aparicoes em sonhos terriveis os perturbaram, e temores inesperados vieram sobre eles; 18 e um lancado aqui meio morto, outro ali, declarava a causa da sua morte; 19 pois os sonhos que os perturbavam previamente lhes mostraram isto, para que nao perecessem sem saber por que eram afligidos. 20 Mas tambem os justos experimentaram a morte, e uma multidao foi ferida no deserto; contudo, a ira nao durou muito. 21 Porque um homem irrepreensivel apressou-se a ser o seu defensor, trazendo a arma do seu ministerio - a oracao e a propiciacao do incenso; enfrentou a indignacao e pos fim a calamidade, mostrando que era teu servo. 22 E venceu a ira, nao pela forca do corpo, nem pelo poder das armas, mas pela palavra subjugou o ministro do castigo, lembrando os juramentos e as aliancas feitas com os pais. 23 Porque quando os mortos ja tinham caido em montes uns sobre os outros, interpondo-se, deteve a ira que avancava e cortou-lhe o acesso aos vivos. 24 Porque sobre a sua longa veste sacerdotal estava pintado o mundo inteiro, e as glorias dos pais estavam gravadas nas quatro fileiras de pedras preciosas, e a tua majestade estava no diadema da sua cabeca. 25 A estas coisas o destruidor cedeu e as temeu; pois a simples prova da ira ja bastava. — 39 — Sabedoria de Salomao Capitulo 19 1 Mas sobre os impios veio ira implacavel ate ao fim; porque ele sabia de antemao o que fariam: 2 que, tendo-os pressionado a partir e tendo-os apressado no seu caminho, se arrependeriam e os perseguiriam. 3 Pois enquanto ainda estavam no meio do seu luto, e fazendo lamentacao junto as sepulturas dos mortos, adotaram outro conselho de insensatez, e perseguiram como fugitivos aqueles que com suplicas tinham expulsado. 4 Porque a sentenca que mereciam os arrastava para este fim, e os fazia esquecer o que lhes havia acontecido, para que completassem o castigo que ainda faltava aos seus tormentos, 5 e para que o teu povo fizesse uma viagem maravilhosa, mas eles mesmos encontrassem uma morte estranha. 6 Porque toda a criacao, na sua propria natureza, foi novamente remodelada, obedecendo aos seus respectivos mandamentos, para que os teus servos fossem guardados ilesos. 7 Entao se viu a nuvem que cobria o acampamento com sombra, e terra seca emergindo do que antes era agua; do Mar Vermelho, uma estrada desimpedida, e uma planicie verdejante da onda violenta; 8 por onde passaram com todos os seus exercitos - eles que foram cobertos pela tua mao - tendo contemplado maravilhas extraordinarias. 9 Porque como cavalos pastavam a solta, e como cordeiros saltavam, louvando a ti, o Senhor, que os livraste. 10 Pois ainda se lembravam do que acontecera no tempo da sua peregrinacao: como, em vez de produzir gado, a terra produziu piolhos, e em vez de peixes o rio lancou fora uma multidao de ras. 11 Mas depois viram tambem uma nova especie de aves, quando, levados pelo desejo, pediram iguarias luxuosas; 12 porque, para os consolar, subiram do mar codornizes. 13 E sobre os pecadores vieram os castigos, nao sem sinais dados de antemao pela forca dos trovoes; pois justamente sofriam pelas suas proprias maldades extremas, 14 porque deveras praticaram uma odiosa hostilidade contra os estrangeiros. Porque, enquanto certos homens nao receberam os forasteiros que vinham entre eles, 15 estes fizeram — 40 — escravos de hospedes que eram seus benfeitores. E nao somente isso, mas Deus visitara os primeiros de outra maneira, pois receberam como inimigos os que lhes eram estranhos; 16 ao passo que estes primeiro os acolheram com festas e depois os afligiram com terriveis trabalhos, a eles que ja tinham compartilhado dos mesmos direitos. 17 E tambem foram feridos com perda de visao - assim como aqueles outros, a porta do justo - quando, cercados de trevas que se abriam em abismo, cada um procurava a passagem pela sua propria porta. 18 Porque os elementos mudaram a sua ordem entre si, assim como as notas de um salterio variam o carater do ritmo, continuando sempre os mesmos, cada um no seu proprio som - como se pode claramente adivinhar pela vista do que aconteceu. 19 Pois criaturas da terra seca se transformaram em criaturas das aguas, e criaturas que nadam andaram sobre a terra. 20 O fogo manteve o dominio do seu proprio poder no meio da agua, e a agua esqueceu a sua natureza de apagar. 21 Ao contrario, as chamas nao consumiram a carne de criaturas pereciveis que andavam entre elas, nem derreteram os graos semelhantes a gelo de alimento ambrosiano, que por natureza eram aptos a derreter. 22 Porque em todas as coisas, o Senhor, engrandeceste o teu povo, e o glorificaste e nao o desprezaste, permanecendo ao seu lado em todo tempo e lugar. — 41
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